Os executivos do setor financeiro estimam que os recursos da web3 podem reduzir até 25% os custos operacionais relacionados com a prestação de serviços bancários, revela um estudo recente da Bain & Company – que mostra que mais de metade dos quase 70 executivos inquiridos acredita que a web3 vai mudar as atividades realizadas historicamente pelos bancos. A falta de uma regulação clara é apontada como o principal obstáculo para a adoção da web3.
Os resultados surgem num momento em que os bancos se sentem ameaçados pela concorrência das fintechs e grandes tecnológicas, que estão a capturar algumas das atividades bancárias tradicionais. Apesar destes desafios, a Bain & Company avança que os bancos estão bem posicionados e têm a oportunidade de se defenderem e até de ganharem quota de mercado, se oferecerem serviços aprimorados e integrados que aproveitam a web3. Assim, a questão central não é se devem explorar as tecnologias da web3, mas como, onde e quando fazê-lo.
“Vemos a adoção da web3 como algo parecido ao advento do comércio eletrónico em termos de grau de disrupção e de natureza das possibilidades”, afirmou Thomas Olsen, partner da Bain e codiretor global da prática de Web3 & Metaverse da Bain & Company. “O comércio eletrónico melhorou a eficiência dos participantes do mercado de capitais; as empresas que investiram cedo saíram a ganhar, e muitas das que mantiveram as velhas abordagens perderam quota. O nosso estudo mostra que, embora nem todos os bancos precisem de apostar tudo agora, os próximos 2 a 3 anos deverão apresentar oportunidades significativas para influenciar e moldar o desenvolvimento e as normas do ecossistema, bem como desenvolver as competências internas com vista a colher benefícios no futuro. Portanto, há ações específicas que muitos bancos podem tomar agora para se prepararem para a web3.”
A web3 oferece novas oportunidades
Além de reduzir os custos operacionais, a Bain & Company estima que a web3 pode trazer aos bancos uma infinidade de oportunidades, incluindo a redução do risco operacional e a libertação de capital nos balanços dos bancos graças à otimização dos processos. Os inquiridos assinalaram que estão interessados em lançar novas ofertas com pagamentos e títulos programáveis, intermediando uma gama mais ampla de ativos do mercado privado quando “tokenizados”. Também apontaram que podem aproveitar a disponibilidade de dados de maior qualidade para novas análises e serviços de consultoria. As aplicações da Web3 vão permitir aos bancos fornecer serviços em torno dos ativos “tokenizados” – utilizando-os, por exemplo, como garantia e para gerir a liquidez.
Clara Albuquerque, partner da Bain & Company em Lisboa acrescentou: “Os mercados de capitais privados, muito mais atrativos do que os públicos em valor e crescimento, têm alguns processos ineficientes e pouco transparentes. É precisamente aqui que encontramos as maiores oportunidades de tokenização, como a dívida privada, o capital das empresas e o imobiliário, dada a sua relativa ineficiência face à infraestrutura dos mercados públicos. Os benefícios das plataformas digitais incluem processos administrativos mais eficientes, transparência, melhor governança e, adicionalmente, um conjunto mais amplo de carteiras de produtos e acesso a novos investidores.”
Além disso, segundo a Bain & Company, os primeiros a adotar a web3 podem aproveitar estes aspetos para reconfigurar a sua economia, tornando os serviços bancários mais integrados e fluidos para os clientes, ao mesmo tempo que melhoram enormemente a eficiência.
Barreiras à adoção
Embora a web3 torne o sistema bancário mais eficiente, não está isenta de desafios. O impacto do Web3 na rentabilidade total é pouco claro, já que o incremento da eficiência e a concorrência afetam os preços. Segundo a Bain & Company, a adoção generalizada da web3 terá de ultrapassar diversas barreiras. Para começar, os legisladores e os reguladores ainda só começaram a considerar as diretrizes e normas claras que vão ser essenciais para que os operadores já estabelecidos avancem. Além da incipiente regulamentação e legislação, os inquiridos também citaram a quantidade de mudanças necessárias nos processos bancários existentes como outro obstáculo importante. Os entrevistados acreditam que a adoção da web3 no setor bancário vai acontecer, em média, dentro de cinco a seis anos, pelo que o progresso até 2030 tenderá a ser gradual e variará segundo o caso de uso e a geografia em geral.
“A velocidade e o nível final de adoção ou disrupção variam de acordo com a linha de negócio”, acrescentou Richard Walker, partner da prática de Serviços Financeiros e codiretor global da prática de Web3 e Metaverso da Bain & Company. “Espera-se que a adoção ocorra mais cedo em setores mais simples e dentro de mercados integrados verticalmente ou onde os bancos possam atuar sozinhos ou em pequenos grupos, bem como em áreas onde a infraestrutura existente é limitada e o potencial de ganhos de eficiência é maior. A nossa análise sugere que os primeiros candidatos prováveis a uma adoção significativa da web3 são os gestores de caixa nos grossistas e os pagamentos no retalho, a custódia e o serviço de ativos e os mercados de capitais privados”.
Impacto na identidade digital
Outra consideração para os bancos é o impacto da web3 na identidade digital dos clientes. A Bain & Company concluiu que a identidade do cliente é um fator crítico para aproveitar o potencial da web3, e que os bancos têm a oportunidade de liderar o desenvolvimento de identidades persistentes e transferíveis. O estudo mostra que o potencial da web3 num espaço regulado depende da vinculação da identidade digital a uma estrutura robusta de conhecimento do cliente (KYC, sigla de know your customer). Segundo a consultora estratégica, uma identidade transferível, que permita aos clientes serem proprietários dos seus dados, utilizá-los em aplicações e partilhar partes concretas com os provedores de serviços, pode transformar o relacionamento entre clientes e fornecedores.
À medida que as empresas competem para moldar o futuro da identidade online, é provável que as carteiras digitais web3 desempenhem um papel importante. Estas carteiras atuam como identidades digitais unificadas ou interoperáveis que vão conectar os usuários às aplicações, oferecendo funções de login e ligação universais.
Os bancos têm muito a dizer na hora de supervisionar a identidade digital, mas terão que descobrir como guiar um ecossistema amplo rumo a normas comuns. É possível que sejam necessárias abordagens colaborativas para estabelecer uma ferramenta de identidade e a KYC capazes de autenticar os utilizadores, ou que um órgão regulador e de governança tenha de definir normas para promover a interoperabilidade.
Aspetos bancários a mudar
À medida que a web3 evolui, a Bain & Company sustenta que, se quiserem ter sucesso, os bancos vão querer pensar mais como disruptores. Para fazê-lo, os aspetos que os bancos devem mudar incluem:
- Modelos operacionais: os bancos podem criar um sistema central de coordenação da web3 capaz de alinhar as iniciativas com a estratégia geral, monitorizar melhor os resultados, capturar as sinergias tecnológicas e apostar fortemente em situações de alto valor.
- Ecossistemas seletivos: As abordagens restritivas da web3 vão desaparecer na maioria das instituições à medida que as associações geram mais valor, por exemplo conectando-se a ecossistemas ou construindo-os.
- Estratégia de investimento: face a muitos outros investimentos que os bancos fazem, os investimentos na web3 têm um período de retorno longo e incerto, mesmo quando o mercado muda rapidamente. Muitos casos de uso vão exigir uma coordenação com outras instituições. Os bancos devem estar dispostos a reinventar processos e a sacrificar negócios existentes, ainda que isso deva ser equilibrado com fatores financeiros, a vontade de mudança e o cumprimento das normas.
- Talento: o talento especializado na Web3 é escasso, pelo que os bancos devem desenvolver estruturas que atraiam esses indivíduos e também formas de aceder a talentos e aptidões por via dos parceiros do setor.
- Risco: a Web3 vai forçar as estruturas tradicionais de controle de risco a adaptarem-se e evoluírem, o que exigirá o envolvimento da equipa de risco em cada etapa do desenvolvimento do produto. A Web3 deve oferecer melhorias significativas na gestão de risco, mas os bancos vão precisar de fazer progredir os processos e métodos existentes, assim como trabalhar com os reguladores para desenvolver a regulamentação e a supervisão relevantes.
Preparação para a transição: uma série de medidas a não lamentar
Para a Bain & Company, os bancos podem adotar um conjunto de medidas a não lamentar para se prepararem para a transição rumo à web3:
- Definir o objetivo de nível empresarial com respeito à web3 e passar de “esperar para ver” para “explorador cauteloso”, “incumbente progressivo” e “líder da web3”.
- Decidir quais os casos de uso seguir, tendo em conta a variedade existente de negócios e clientes, e tendo em consideração os efeitos da rede e as possíveis aplicações cruzadas dos casos de uso.
- Definir uma linha de ação para cada um desses casos de uso e uma estratégia de investimento.
- Definir a combinação adequada de construção, compra e associação para oferecer os casos de uso.
Adiantar-se à concorrência
Embora o setor de serviços financeiros tenha sido um dos primeiros a investigar e a testar muitas das tecnologias emergentes da web3, a Bain & Company relembra aos bancos que a transição deverá ser desigual, especialmente antes de as estruturas regulatórias se começarem a estabelecer. Os bancos já estabelecidos devem gerir a incerteza, ou correm o risco de ser superados por concorrentes mais velozes.
Link: https://www.bain.com/insights/web3-experiments-start-to-take-hold-in-banking/.
