Ao longo deste ano escrevi sobre família.
Sobre aquilo que nos forma antes de termos linguagem para o nomear.
Escrevi sobre mães e filhas, pais e filhos.
Sobre silêncios que passam de geração em geração, afetos condicionados, medos que aprendemos cedo demais.
Escrevi sobre o que raramente se diz em voz alta, mas que quase todos reconhecem em silêncio: a família como lugar de abrigo e, tantas vezes, como lugar de ferida.
Agora, com o Natal à porta e 2025 a aproximar-se do fim, sinto que mais do que balanços, precisamos de perguntas.
Não sobre o que fizemos ou conquistámos, mas sobre o que continuamos a repetir sem questionar.
Este foi, para mim, um ano de encerramentos e de abertura de consciência.
Um ano em que voltei a olhar para padrões antigos e a chamá-los pelo nome.
Publiquei uma nova edição de “Eva Entrega a Costela a Adão — Um Olhar Atento aos Padrões Familiares de Violência”, um livro que desafia narrativas profundamente normalizadas, onde a desigualdade e a violência simbólica se disfarçam, muitas vezes, de amor, proteção ou dever.
Publiquei também “O Amor Que Procuras Está Dentro de Ti”, um convite à responsabilidade emocional, à autonomia afetiva e à reconstrução da relação connosco próprios, porque ninguém aprende a amar o outro se nunca aprendeu a reconhecer o próprio valor.
E encerrei esta trilogia com “A Casa Onde Cresciam Sombras e Flores”, um conto de Natal sobre famílias comuns, dores invisíveis e a possibilidade real e difícil de quebrar ciclos e escolher fazer diferente.
A Trilogia Amar Eva não é apenas literatura.
É um espelho.
Um convite a olhar para a infância não como um lugar idealizado, mas como o território onde tudo começa: o amor e o medo, a culpa e o afeto, a igualdade e a discriminação.
Porque é desde cedo que ensinamos quem pode falar e quem deve calar.
Quem é forte e quem tem de aguentar.
Quem merece cuidado e quem aprende a desenrascar-se sozinho.
Discriminamos desde a infância muitas vezes sem intenção, mas nunca sem consequências.
E, ao fazê-lo, negamos a crianças as mesmas oportunidades emocionais, sociais e humanas.
Depois, estranhamos adultos feridos, relações desequilibradas, sociedades violentas e desiguais.
É urgente começar mais cedo.
É urgente interromper padrões ainda na infância.
Não haverá verdadeira igualdade enquanto continuarmos a educar meninas para a obediência e meninos para a ausência emocional.
Não haverá famílias saudáveis enquanto confundirmos amor com sacrifício, controlo ou silêncio.
Não haverá uma sociedade mais justa sem adultos que tenham aprendido, em crianças, que o seu valor não nasce do medo.
Ao terminar 2025, deixo esta mensagem de esperança para 2026:
Que sejamos a geração que ousa parar o automático.
Que tenha coragem de questionar o que sempre foi “assim”.
Que escolha educar com consciência, amar com presença e viver com responsabilidade emocional.
Que possamos, finalmente, ensinar às nossas crianças aquilo que tantos de nós tivemos de reaprender em adultos:
que amor não dói,
não diminui,
não discrimina.
Que amor liberta.
Talvez não possamos mudar o passado.
Mas o futuro, esse, continua inteiro por escrever.
Fernanda Ferreira, Professora, Mãe, Fundadora e Presidente da Associação Amar Eva
Autora do livro “Eva entrega a Costela a Adão”; “O Amor que procuras está dentro de ti” e “A casa onde cresciam sombras e flores”
Vice-presidente da Rede Global de Mentores
Contacto: amareva.associacao@gmail.com
