“Adolescente violada por grupo em Loures”. “Crimes foram filmados e divulgados nas redes sociais”.
Uma jovem foi vítima de um crime hediondo. Para além da violência física e psicológica que sofreu, houve outra agressão – a exposição pública da sua dor. O vídeo da violação foi partilhado e visto inúmeras vezes antes de alguém o denunciar às autoridades.
- Quantas pessoas viram e nada fizeram?
- Quantos partilharam, comentaram ou simplesmente ignoraram, tratando a violação como mais um conteúdo na visualizações infinita das redes sociais?
Quando ouvimos falar de um caso de violência—uma agressão na escola, um vídeo humilhante a circular nas redes sociais, uma vítima que implora ajuda e recebe apenas o eco da sua própria voz—qual é a nossa primeira reação?
Talvez um sobressalto de indignação. Talvez um comentário de reprovação nas redes sociais. Ou, talvez, um silêncio desconfortável. Um silêncio que justifica a inação: “Isto não me diz respeito.” “Não posso fazer nada.” “Alguém há de agir.”
Os estudos de psicólogos sociais como John Darley e Bibb Latané, mostram que a maioria de nós assume precisamente isso—que “alguém há de fazer algo”. Mas, se todos pensam assim, quem age?
Se ficarmos parados, seremos apenas mais um rosto na multidão que assistiu e não interveio.
E se esse silêncio não for apenas um reflexo da indiferença, mas sim das nossas próprias dores não resolvidas?
- Quantas pessoas cresceram a sentir na pele a impotência de um grito que ninguém ouviu?
- Quantas já foram humilhadas e engoliram a vergonha porque ninguém acreditou nelas?
- Quantos de nós aprendemos, cedo demais, que pedir ajuda podia ser um erro?
No livro O Efeito Lúcifer, escrito pelo professor de psicologia social Philip Zimbardo, demonstra como as pessoas comuns podem tornar-se cúmplices da violência por conformismo ou medo de represálias.
Será que o nosso silêncio, hoje, é um reflexo das vezes em que ninguém interveio por nós?
A escritora norte-americana Susan Cain, em O poder dos quietos, explora o impacto do medo do julgamento.
Quantas vezes deixamos de denunciar, de falar, de agir, apenas porque receamos ser mal interpretados, ridicularizados, ou até acusados?
Nas redes sociais, o fenómeno agrava-se. O que antes exigia uma presença física e um olhar direto, agora acontece atrás de um ecrã, com um simples clique. A professora Sherry Turkle explica que a tecnologia nos deu um falso sentimento de ligação, ao mesmo tempo que nos afastou da empatia real.
Partilhar um vídeo de violência tornou-se mais fácil do que denunciá-lo. Assistir tornou-se mais seguro do que intervir.
E assim, os rostos dos agressores e das vítimas mudam, mas o ciclo permanece.
O silêncio protege apenas os agressores. Nunca as vítimas.
Se o passado nos ensinou que gritar não adiantava, podemos ser a voz que hoje escuta.
Se ninguém nos protegeu, podemos ser o abrigo que antes nos faltou.
Se sentimos medo de agir, podemos começar por reconhecer esse medo e, ainda assim, dar um passo em frente.
Cada um de nós tem a escolha entre perpetuar a normalização da violência ou ser parte da mudança.
Porque um dia, quando olharmos para trás, o que nos vai assombrar não será apenas o que os outros fizeram.
Mas aquilo que nós escolhemos não fazer.
E se tudo fosse diferente?
Fernanda Ferreira, Professora, Mãe, Fundadora da Associação Amar Eva
Autora do livro “Eva entrega a Costela a Adão”
Vice-presidente Operativa Regional da Europa, na Rede Global de Mentores
Contacto: amareva.associacao@gmail.com
