Portugal regista um abrandamento drástico na atenção dedicada às causas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). De acordo com o novo relatório Orgulho Sem Resposta, desenvolvido pela consultora global LLYC, que analisou a evolução deste ecossistema entre os anos de 2021 e 2026, a conversa social mensal sobre o coletivo LGBTIQ+ no País era, em média, 66% maior nos quatro anos anteriores ao período analisado.
Esta constatação revela uma forte tensão no debate público nacional: embora Portugal mantenha uma posição sólida e de vanguarda entre os quadros europeus de proteção jurídica, a presença cultural e o interesse social em torno do tema perderam continuidade e densidade. Os direitos permanecem reconhecidos no papel, mas a conversa pública perdeu o fôlego necessário para os sustentar no centro da agenda.
O estudo refere que, no mercado português, este fenómeno, batizado de ‘Rainbow Ghosting’, não se traduz num desmantelamento das instituições ou das leis. Manifesta-se, sim, como um enfraquecimento silencioso dos sinais de apoio social em torno de um ecossistema legal que ainda é robusto.
Para dimensionar este fenómeno, a LLYC aplicou ferramentas de Big Data, inteligência artificial e processamento de linguagem natural (NLP). No total, analisou 15,1 milhões de notícias publicadas entre 2021 e 2026, 202 milhões de mensagens na rede social X, recolhidas desde 2018, e mais de 4,6 milhões de conteúdos violentos nos 12 países onde está presente. Além disso, examinou como os sistemas generativos interpretam a identidade mediante 90 perguntas sobre diferentes âmbitos da vida a com cinco perfis de controlo, quatro LGBTIQ+ e um cis-hetero, e a análise de 627 imagens geradas por IA.
Os dados globais consolidados até ao primeiro semestre de 2026 confirmam que o pico de compromisso verificado em 2023 deu lugar à intermitência e à sazonalidade:
- Contração dos meios: A cobertura mediática caiu 2,5% por trimestre desde 2021, uma quebra que acelerou para quase 10% trimestrais nos últimos três anos.
- Efeito calendário: A conversa anual está cada vez mais estreita e encapsulada no segundo trimestre, o período do Pride, que passou de concentrar 28,5% das publicações em 2023 para mais de 32% nos anos seguintes.
- Recuo corporativo: As grandes empresas da Fortune 500 com políticas DEI ativas e visíveis representam hoje apenas dois terços das que estavam registadas em 2023. No plano académico, 85% das modificações recentes em universidades corresponderam a encerramentos, cancelamentos, enfraquecimentos ou revisões em baixa.
Menos volume nas redes sociais, mais hostilidade digital
O relatório demonstra que uma conversa mais pequena nas redes sociais não significa um ambiente menos hostil. Embora o volume global de mensagens sobre a comunidade LGBTIQ+ no X tenha caído para metade, de 26,1 milhões em 2023 para 12,7 milhões no último período, o discurso de ódio aumentou em oito de cada dez países analisados, com um crescimento médio de 38% face aos quatro anos anteriores. Atualmente, três em cada cinco mensagens analisadas constituem um ataque direto.
O estudo identifica ainda uma mutação na linguagem hostil, que se camufla sob enquadramentos aparentemente legítimos, como a proteção da infância, um território que concentra 19,1% dos ataques digitais, onde sete em cada dez referências se apoiam em narrativas sobre crianças e jovens, ou a defesa da família tradicional.
O viés algorítmico: a IA desenha dois futuros desiguais
A análise que a LLYC realizou revela uma lacuna crítica nos sistemas generativos de Inteligência Artificial. Perante dúvidas e inquietações vitais equivalentes, a máquina não distribui as mesmas oportunidades de projeção:
- Sucesso face à sobrevivência: os conceitos de autonomia e independência aparecem com uma intensidade 140% superior nas respostas dirigidas a perfis cis-hetero. Em contrapartida, os perfis LGBTIQ+ recebem mais 72% de associações com a gestão do medo, mais 72% de referências ao respeito e à dignidade, e mais 42% de termos sobre exclusão ou rejeição.
- Viés emocional: sete de cada dez respostas dirigidas a jovens do coletivo constroem-se a partir dos sentimentos e das emoções, face a apenas metade (uma de cada duas) no caso de homens cis-hetero.
- Estereótipos visuais: o viés também é estético. Em 70% das imagens neutras geradas, os perfis LGBTIQ+ parecem forçados com símbolos explícitos da sua identidade (como bandeiras), enquanto 97% dos perfis solicitados sem contexto foram representados por defeito como pessoas caucasianas.
“O que revela este relatório é a retirada progressiva e por goteio do apoio público à diversidade LGBTIQ+ por parte de marcas, instituições e meios”, afirma Albert Medrán, Global Brand & ESG Head da LLYC e coordenador do estudo. “O ecossistema que antes contribuía para suster publicamente a sua pertença responde com menor frequência e continuidade, deixando que as narrativas mais hostis ocupem esse espaço, um discurso que, infelizmente, a IA já começa a recolher. Precisamos de responder a esta dinâmica e não a deixar num simples ‘visto’ este apoio”.
Voltar a responder: cinco eixos do compromisso permanente
O documento conclui com uma proposta para que as organizações deixem de aplicar o silêncio digital e construam sinais de inclusão que permaneçam no tempo através de cinco eixos estratégicos:
- Continuidade: garantir que as políticas de diversidade sobrevivam a junho e continuem vigentes na cultura, nas decisões e na liderança diária.
- Coerência: alinhar a comunicação externa com a experiência de colaborador real dentro da companhia.
- Complexidade: representar o coletivo LGBTIQ+ a partir das suas metas, ambições e capacidades de liderança, superando os enquadramentos únicos de vulnerabilidade ou discriminação.
- Futuro: prover ferramentas que impulsionem e deem autonomia às novas gerações.
- Responsabilidade algorítmica: auditar de forma ativa as ferramentas tecnológicas e os desenvolvimentos de IA aplicados nas organizações para detetar e mitigar vieses de representação.
