O setor dos transportes em Portugal encerrou 2025 com 7.622 reclamações, mais 14,32% do que em 2024, num ano marcado por recordes históricos de passageiros, greves de impacto nacional e forte pressão sobre infraestruturas envelhecidas.
Segundo o estudo ‘O Estado dos Transportes em Portugal – 2025′, desenvolvido pela Consumers Trust Labs com base em dados do Portal da Queixa, o sistema vive uma dualidade evidente: maior acessibilidade e procura crescente, mas qualidade de serviço sob tensão.
Rodoviário lidera reclamações
O transporte rodoviário coletivo concentrou 40,63% das queixas. Entre as entidades mais visadas estão Rede Expressos(33,61%), CARRIS, Carris Metropolitana, FlixBus e UNIR.
Apesar de números históricos — como os 194 milhões de passageiros da Carris Metropolitana — multiplicaram-se relatos de atrasos, longos tempos de espera e falhas de comunicação, com agravamento expressivo no verão.
Ferrovia bate recordes, mas expõe limites
Impulsionada pelo Passe Ferroviário Verde, a CP – Comboios de Portugal atingiu 208,2 milhões de passageiros(+107,1% nos serviços regionais).
Ainda assim, o setor ferroviário e metropolitano registou um aumento de 33,50% nas reclamações. A CP concentrou 54,10% das queixas, seguida da Fertagus (19,67%).
Principais motivos: atrasos (36,81%) e sobrelotação/condições de higiene (25,54%), refletindo desajuste entre política comercial e capacidade instalada.
Aéreo: estabilidade nas queixas, queda na satisfação
O transporte aéreo registou uma subida moderada de 2,86% nas reclamações, mas a satisfação recuou 11,75%. As companhias mais reclamadas foram TAP Air Portugal (28,10%), Ryanair (22,22%), EasyJet (10,62%) e SATA Air Açores.
O pico anual ocorreu a 4 de agosto, durante a greve da Menzies Aviation, que afetou operações em plena época alta.
Entretanto, a reprivatização da TAP atraiu o interesse de grupos como Lufthansa, Air France-KLM e International Airlines Group, sem reflexo direto na perceção do passageiro.
TVDE, rent-a-car e marítimo: foco financeiro e disrupções
No TVDE e táxis, as reclamações caíram 1,05%, mas continuam concentradas na Uber (66,60%) e Bolt (28,60%), sobretudo por cobranças indevidas e reembolsos (53%).
O aluguer de automóveis subiu 20,74% (949 ocorrências), com destaque para CarJet, Guerin, Centauro Rent a Car, Europcar e Hertz. Quase 67% das queixas referem-se a cauções e taxas pouco transparentes.
Já o transporte marítimo duplicou reclamações (+112,50%), sobretudo na Transtejo, afetando pendulares da Margem Sul.
Sinais de maturidade na resposta
Apesar da subida global das reclamações, o Barómetro aponta melhorias:
Satisfação média aumentou 13,68% (3,01 para 3,42);
Tempo médio de resposta melhorou 19,67%;
Recuperação emocional pós-intervenção cresceu 23,17%.
Lisboa (34,22%), Porto (18,97%) e Setúbal (12%) concentram a maioria das queixas, sobretudo entre os 25 e os 54 anos.
Para Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust, “Portugal reduziu o custo de acesso à mobilidade, mas enfrenta fragilidades estruturais na qualidade do serviço. O desafio para 2026 será transformar reação em planeamento estratégico, garantindo que a mobilidade deixe de ser foco de frustração e se afirme como motor de coesão e sustentabilidade.”
Sobre o estudo
O Barómetro analisou quantitativa e qualitativamente 7.622 reclamações reais registadas entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2025 no Portal da Queixa.
