A Inteligência Artificial está a impulsionar uma nova fase da evolução tecnológica, marcada pela crescente importância das infraestruturas, dos semicondutores e da cibersegurança para a sua adoção em escala. Esta é uma das principais conclusões da sexta edição do relatório Technology Trends Outlook 2026, da McKinsey & Company, que analisa 14 tecnologias de vanguarda (frontier technologies) que estão a moldar os negócios e a sociedade e avalia o seu potencial impacto.
O estudo conclui que a tecnologia está a entrar numa nova fase de desenvolvimento, marcada pela crescente convergência entre os mundos digital e físico. À medida que a Inteligência Artificial se integra em processos, equipamentos e sistemas do mundo real, torna-se cada vez mais dependente dos chips, redes elétricas, sistemas de conectividade, infraestruturas de segurança e talento necessários para a implementar em escala. Esta evolução está a acelerar o desenvolvimento de múltiplas tecnologias e a criar novas oportunidades, mas também novos constrangimentos para empresas e economias.
Infraestruturas e semicondutores assumem um papel cada vez mais estratégico na nova economia da IA
A McKinsey identifica uma mudança estrutural na forma como a procura computacional está a evoluir. À medida que as organizações passam da experimentação para a utilização quotidiana dos modelos de IA, uma proporção crescente da capacidade computacional deixa de estar associada ao treino dos modelos e passa a decorrer da sua execução, uma fase conhecida como inferência.
Esta evolução está a impulsionar a procura por semicondutores especializados e infraestruturas de IA capazes de responder a novos requisitos de eficiência, desempenho e consumo energético. Segundo o estudo, a inferência poderá representar entre 30% e 40% da procura total dos centros de dados até 2030 e deverá concentrar a maior parte da capacidade computacional utilizada diariamente pelos sistemas de Inteligência Artificial, reforçando a importância crescente dos semicondutores concebidos especificamente para esta nova fase de utilização.
A passagem do treino para a execução quotidiana dos modelos coloca, assim, novas exigências aos fabricantes de semicondutores. Mais do que aumentar a velocidade de processamento, o desafio passa também por desenvolver chips capazes de assegurar maior eficiência na utilização regular e em escala das aplicações de IA. Para as organizações, esta transformação significa que a vantagem competitiva dependerá cada vez menos do simples acesso à tecnologia e mais da capacidade para assegurar recursos computacionais, modernizar sistemas, reforçar competências e implementar as novas capacidades em escala.
Esta transformação está também a reforçar a interdependência entre diferentes componentes da infraestrutura tecnológica. À medida que aumenta a utilização da Inteligência Artificial, cresce igualmente a importância da energia, da conectividade e da capacidade computacional necessárias para suportar a operação destas soluções em escala. Para a McKinsey, a próxima fase da adoção da IA dependerá cada vez mais da capacidade de combinar estas diferentes camadas de infraestrutura de forma eficiente.
“À medida que a Inteligência Artificial passa da experimentação para uma utilização mais generalizada, a infraestrutura necessária para a suportar assume um papel cada vez mais estratégico. Semicondutores, capacidade computacional, conectividade, energia e cibersegurança tornam-se fatores determinantes para implementar a tecnologia em escala e transformar inovação em resultados concretos para as organizações”, afirma Benjamim Vieira, sócio sénior da McKinsey & Company.
A IA está a transformar o panorama da cibersegurança
A cibersegurança surge como uma das áreas mais diretamente impactadas pela evolução da Inteligência Artificial. As mesmas capacidades que permitem às organizações detetar ameaças, automatizar respostas e reforçar a monitorização dos sistemas estão também a ajudar os atacantes a identificar e explorar vulnerabilidades de forma mais rápida e sofisticada. O relatório destaca que mais de três quartos das vulnerabilidades de cibersegurança são atualmente classificadas como zero day, o que significa que, no momento da sua divulgação pública, já foi desenvolvida uma forma de as explorar.
Esta redução da janela disponível para a defesa está a tornar a cibersegurança uma prioridade estratégica para empresas e instituições.
14 tecnologias de vanguarda moldam a próxima década de inovação
O McKinsey Technology Trends Outlook 2026 acompanha 14 tecnologias de vanguarda agrupadas em três grandes áreas: Revolução da IA (AI Revolution), Novas Fronteiras da Computação e Conectividade (Compute and Connectivity Frontiers) e Engenharia de Vanguarda (Cutting-edge Engineering). Entre elas incluem-se IA Agêntica, desenvolvimento de software agêntico, IA aplicada à descoberta científica e engenharia, infraestruturas e arquiteturas de IA, semicondutores especializados, conectividade avançada, cibersegurança e sistemas de confiança digital, tecnologias de realidade imersiva, robótica, mobilidade, computação quântica, tecnologias espaciais, ciências da vida e bioengenharia e tecnologias de energia e sustentabilidade.
A análise conclui que as fronteiras entre estas tecnologias se estão a tornar cada vez menos definidas. Embora apenas quatro tendências estejam diretamente relacionadas com IA, a tecnologia está a acelerar a evolução das restantes dez, influenciando áreas como o desenvolvimento de software, a investigação científica, a robótica, a cibersegurança, os semicondutores e as infraestruturas.
Entre estas áreas, a cibersegurança assume um papel particularmente relevante, demonstrando como a IA está a alterar simultaneamente os mecanismos de proteção das organizações e a natureza das ameaças digitais com que estas se confrontam. Ao mesmo tempo, a crescente relevância das tecnologias de energia e sustentabilidade demonstra que a evolução da Inteligência Artificial depende cada vez mais de infraestruturas físicas capazes de sustentar a sua implementação em escala. À medida que aumentam as necessidades de computação e conectividade, a disponibilidade de energia e o tempo necessário para a garantir tornam-se constrangimentos estruturais ao crescimento da infraestrutura de IA.
Esta convergência está a alterar não apenas a forma como a tecnologia é desenvolvida, mas também as condições necessárias para transformar inovação em valor económico. Para as empresas, a corrida tecnológica está a deslocar-se do acesso às ferramentas para a capacidade de as implementar em escala, integrando infraestrutura, segurança, talento e transformação dos modelos operacionais.
Transformar investimento em adoção continua a ser um desafio central
Apesar da forte dinâmica de investimento e do crescente interesse em torno da Inteligência Artificial, grande parte da atual expansão da IA continua concentrada em investigação, desenvolvimento e experimentação. A adoção empresarial da tecnologia continua a evoluir a um ritmo inferior ao da atenção e dos recursos que tem vindo a atrair nos últimos anos.
Mais de 75% das ofertas de emprego associadas às tendências diretamente relacionadas com IA e aos semicondutores especializados continuam concentradas em funções de investigação e desenvolvimento (I&D), sugerindo que uma parte significativa da atividade permanece focada na experimentação, desenvolvimento e aperfeiçoamento destas tecnologias.
Em contraste, áreas mais maduras como cibersegurança, conectividade, mobilidade, energia e ciências da vida apresentam um perfil de adoção mais avançado. Segundo a McKinsey, mais de metade das ofertas de emprego nestes domínios está associada a funções não relacionadas com I&D, incluindo operações, vendas, marketing e funções de suporte ao negócio. Esta diferença reforça uma das principais mensagens do relatório: o desafio já não está apenas em acompanhar a velocidade da inovação, mas em modernizar sistemas, desenvolver competências, reforçar a cibersegurança e adaptar os modelos operacionais para transformar as novas capacidades em valor mensurável.
Cinco tendências deverão mais do que duplicar o investimento em 2026
O estudo revela ainda que cinco tendências tecnológicas estão em trajetória para mais do que duplicar o investimento em 2026 face ao ano anterior: Desenvolvimento de Software Agêntico, Infraestruturas e Arquiteturas de IA, IA para Descoberta Científica e Engenharia, Robótica e Tecnologias Espaciais. Duas destas categorias, Desenvolvimento de Software Agêntico e IA para Descoberta Científica e Engenharia, integram pela primeira vez o Technology Trends Outlook. A sua inclusão reflete a rapidez com que a Inteligência Artificial está a transformar a forma como o software é desenvolvido e como a investigação científica é conduzida, justificando a sua análise como tendências autónomas.
A trajetória de investimento nestas áreas sinaliza a forte convicção dos investidores no potencial das tecnologias de vanguarda para impulsionar a produtividade, acelerar a inovação e gerar novas fontes de crescimento económico ao longo da próxima década.
“Embora o relatório tenha uma perspetiva global, as tendências identificadas refletem desafios e oportunidades particularmente relevantes para a Península Ibérica. O desenvolvimento de capacidades em Inteligência Artificial, cibersegurança e infraestrutura digital segura será cada vez mais importante para permitir que empresas e instituições acelerem a adoção tecnológica e reforcem a sua competitividade. À medida que a inovação avança, o diferencial estará menos no acesso à tecnologia e mais na capacidade de a implementar em escala e transformar em resultados concretos”, acrescenta Benjamim Vieira, sócio sénior da McKinsey & Company.
Num contexto marcado pela aceleração da inovação tecnológica, a capacidade para transformar os avanços em implementação efetiva será cada vez mais determinante para a competitividade das organizações e das economias. Mais do que acrescentar novas ferramentas, o desafio passa por garantir infraestrutura tecnológica, cibersegurança, talento e capacidade de execução, bem como adaptar a forma como o trabalho é realizado para gerar valor real a partir da inovação.
