Depois de um período marcado pela experimentação, a IA está a entrar numa nova fase nas empresas e começa a traduzir-se em resultados concretos. Esta é a principal conclusão do “Applied AI Index 2026”, da Boston Consulting Group (BCG). Ao mesmo tempo, o estudo revela que o investimento nesta tecnologia duplicou num ano e que o desafio passa cada vez mais por garantir que a sua utilização é acompanhada pelos mecanismos de controlo e governação adequados.
O estudo, baseado num inquérito a 1.330 dirigentes de topo e líderes empresariais, mostra que a criação de valor com IA já não está limitada a um pequeno grupo de empresas. As organizações mais avançadas, classificadas pela BCG como preparadas para o futuro, representam 7,5% das empresas analisadas, apresentam 2,3 vezes mais retorno total para os acionistas, 2,4 vezes mais crescimento das receitas e 2,8 vezes mais crescimento do EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) face às empresas menos avançadas. A estas juntam-se 41% das empresas que estão a escalar a utilização de IA e que também apresentam um desempenho superior ao das empresas menos preparadas. Em conjunto, os dois grupos representam 48,5% das organizações analisadas, o que mostra que o valor gerado pela IA já ultrapassa um pequeno grupo de pioneiros.
“Ficou para trás a fase em que quase todas as empresas experimentavam a IA, mas poucas viam o impacto nos resultados. Hoje, quase metade já gera valor significativo com esta tecnologia, e o que as separa das restantes é a capacidade de transformar processos e escalar com disciplina. Para as empresas em Portugal, o desafio é preparar a organização e alinhar tecnologia, talento e governação em torno de resultados concretos. Quem continuar preso a projetos-piloto vai ver a distância para os líderes aumentar.”, afirma Eduardo Bicacro, Managing Director & Partner da BCG Lisboa.
Este avanço é acompanhado por um aumento do investimento. A despesa das empresas com IA passou de cerca de 1,7% das receitas no final de 2025 para 3,3% atualmente, duplicando em menos de um ano. Mais de 80% deste investimento já é realizado fora dos orçamentos centrais de tecnologias de informação (IT) das grandes empresas. A IA está, assim, cada vez mais integrada nas diferentes áreas do negócio.
À medida que aumenta a utilização da IA, cresce também o desafio de as empresas acompanharem sistemas com cada vez mais autonomia. Até 2030, 42% das empresas esperam atribuir aos agentes de IA autonomia na tomada de decisões. Atualmente, contudo, apenas 5% dispõem do conjunto completo de mecanismos de controlo necessários. Entre estes encontram-se mecanismos de supervisão, segurança, auditoria, controlo de custos e possibilidade de reverter decisões ou ações. A BCG estima ainda que os agentes de IA possam representar cerca de 40% do valor total gerado pela IA até 2030.
A transformação estende-se também ao mundo do trabalho. As empresas esperam uma redução de cerca de 10% a 15% da força de trabalho até 2030, com maior impacto nas estruturas de coordenação e gestão intermédia. Apesar desta redução esperada, o estudo sublinha que a maioria das empresas antecipa também a criação de novas funções ligadas à IA. O desafio está mais na requalificação faseada das equipas do que num simples corte de postos de trabalho. Em paralelo, tem-se vindo a notar que algumas organizações já estão a apostar na adaptação das funções e na requalificação dos seus colaboradores: sete em cada dez empresas mais preparadas para o futuro e em fase de consolidação e expansão já estão a investir na requalificação profissional. As funções dedicadas especificamente à IA deverão também triplicar, passando de 7% da força de trabalho em 2026 para 22% em 2030, revela o estudo.
O relatório conclui que as empresas que estão a avançar na adoção de IA partilham várias características. Em vez de tratarem a tecnologia como uma iniciativa isolada, integram-na na estratégia global do negócio, identificam as áreas onde pode gerar maior valor, transformam processos de ponta a ponta e investem em governação e nas competências das “suas pessoas” em paralelo com a tecnologia. Estas organizações acompanham ainda diretamente o impacto da IA nos resultados financeiros, permitindo medir o valor efetivamente criado.
Para as empresas em Portugal, estes resultados globais confirmam uma tendência que já se sente no mercado nacional. A pressão para transformar projetos-piloto de IA em impacto mensurável traz os mesmos desafios de governação e de requalificação da força de trabalho, ainda que com uma escala de investimento distante da dos maiores mercados.
Estudo disponível na íntegra aqui.
