As organizações estão a entrar numa nova era do trabalho, marcada por um ponto de inflexão impulsionado pela rápida evolução da inteligência artificial (IA), que começa a ultrapassar a capacidade de adaptação das pessoas, das estruturas e das culturas organizacionais. Neste contexto, as empresas que irão liderar em Portugal serão aquelas que conseguirem usar a IA para potenciar o talento humano.
Esta é uma das principais conclusões do estudo “2026 Global Human Capital Trends – From tensions to tipping points: Choosing the human advantage”, da Deloitte, que identifica uma mudança estrutural na forma como o trabalho é concebido, organizado e executado. O verdadeiro diferencial competitivo deixa de estar apenas na tecnologia e passa a residir na capacidade de desenvolver o chamado “human advantage”, combinando tecnologia com adaptabilidade, confiança e cultura organizacional. Atualmente, 7 em cada 10 líderes empresariais afirmam que a sua principal estratégia competitiva para os próximos três anos é ser rápido e ágil, o que permitirá uma adapta rápida para capitalizar as mudanças nas necessidades do negócio, dos clientes e do mercado.
De acordo com este estudo, conduzido anualmente pela Deloitte, os profissionais têm atualmente de se adaptar a um ritmo “vertiginoso”, com um terço dos inquiridos a afirmar ter passado por 15 mudanças significativas só no ano passado. Os efeitos em cadeia refletem-se em inúmeras esferas, incluindo no bem-estar, na carga de trabalho e no envolvimento dos colaboradores. No entanto, apenas 27% dos líderes afirmam que as suas organizações conseguem gerir bem a mudança.
Assim, a oportunidade para os líderes reside na transição da gestão da mudança para a capacidade de adaptação como utilizar novas ferramentas, como a IA, para integrar a aprendizagem contínua, o feedback e o apoio imediato diretamente no trabalho, para que as pessoas se possam adaptar com fluidez à medida que as prioridades, as competências e a tecnologia evoluem.
De acordo com Inês Vaz Pereira, Partner da Deloitte, “estamos a assistir a uma transformação estrutural na forma como o trabalho é pensado e executado. A rápida velocidade a que as mudanças económicas, sociais e, especialmente, tecnológicas acontecem tem exigido às organizações uma capacidade de adaptação fora do comum, em muitos casos até para além do possível. É, por isso, essencial repensar a forma como se equilibra o elemento humano com o potencial das máquinas. Neste contexto, o futuro das organizações não está apenas alavancado na qualidade e quantidade de tecnologia disponível, mas sim na capacidade de a combinar com as potencialidades da força de trabalho. A agilidade de adaptação humana, algo que a IA não consegue replicar, poderá ser o elemento diferenciador para a competitividade das organizações no mercado.”
O estudo reúne seis principais tendências tecnológicas, económicas e sociais, que estão a comprimir os ciclos de transformação e a exigir das organizações uma capacidade contínua de reinvenção.
Num ambiente em que a mudança é constante, 85% dos líderes consideram essencial reforçar a
capacidade de adaptação das suas organizações e equipas, mas apenas uma minoria (7%) sente que está efetivamente preparada para responder a essa exigência. De acordo com o Human Capital Trends, as organizações precisam de evoluir de modelos tradicionais de gestão da mudança para uma abordagem contínua, integrando aprendizagem, feedback e ajuste de estratégias em tempo real no próprio fluxo de trabalho.
Nesse sentido, a adoção eficaz da inteligência artificial não depende apenas da tecnologia, mas sobretudo da forma como o trabalho é desenhado e distribuído. Atualmente, muitas organizações continuam a aplicar IA sobre processos existentes, sem repensar a interação entre humanos e máquinas, o que limita significativamente o retorno do investimento.
O estudo conclui que as organizações que redesenham funções, processos e decisões para promover uma colaboração efetiva entre pessoas e IA têm maior probabilidade de gerar valor e melhorar a experiência de trabalho.
A transformação tecnológica está também a colocar uma pressão sem precedentes sobre a cultura organizacional. O estudo mostra que muitas empresas ainda não estão a avaliar devidamente o impacto da IA nas dinâmicas humanas, como confiança, colaboração ou sentido de pertença. A transformação impulsionada pela IA está a obrigar os líderes a repensar a cultura no local de trabalho, com 65% das organizações a considerarem que a sua cultura precisa de mudar significativamente devido à IA.
Neste contexto, a cultura deixa de ser um elemento intangível e passa a assumir-se como uma infraestrutura crítica para o sucesso da transformação, sendo que as organizações que ignorarem este aspeto correm o risco de acumular “culture debt”, ou seja, consequências negativas decorrentes da negligência da cultura.
À medida que a IA passa a influenciar decisões organizacionais, cresce a necessidade de garantir transparência, responsabilidade e clareza sobre quem decide e com base em quê. No entanto, persistem lacunas significativas na forma como as organizações gerem estes processos, colocando desafios ao nível da confiança, tanto interna como externa.
O estudo alerta que, sem uma abordagem estruturada à confiança e à accountability, o uso da IA pode comprometer a qualidade das decisões e a própria coesão organizacional.
Outro dos desafios identificados está relacionado com a estrutura das organizações. Funções tradicionais como recursos humanos, IT ou finanças, historicamente desenhadas para eficiência e controlo, estão muitas vezes desalinhadas com a necessidade atual de agilidade e colaboração transversal. O contexto atual de transformação exige modelos mais flexíveis, orientados a resultados e com maior integração entre áreas, permitindo responder mais rapidamente às mudanças do mercado.
O estudo ainda identifica um conjunto de práticas que distinguem as organizações mais avançadas, que passa pela integração da aprendizagem contínua e da adaptação no dia a dia de trabalho, a promoção da confiança na utilização da inteligência artificial, com foco na transparência e no desenvolvimento do pensamento crítico, o redesenho do trabalho para equilibrar resultados de negócio e impacto humano, e ainda a valorização da cultura como um elemento central da transformação, em vez de um fator secundário.
Consulte o estudo completo aqui.
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