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Imobiliário

Transações superam 34.000 milhões de euros no mercado imobiliário português em 2022

JLL estima crescimento de 14% no montante investido em habitação e imobiliário comercial
9 de Janeiro, 2023
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As profundas alterações macroeconómicas e geopolíticas não travaram o mercado imobiliário português, que deverá terminar 2022 com mais de €34.000 milhões transacionados, de acordo com as estimativas da consultora imobiliária JLL. Este montante não só apresenta um crescimento na ordem dos 14% face aos 30.000 milhões de euros de imóveis vendidos em 2021, como estabelece um novo teto de mercado. As transações incluem imobiliário residencial e comercial, adquirido quer por particulares quer por empresas e institucionais.

O imobiliário residencial dá o maior contributo, com vendas que podem atingir os €31.000 milhões, de acordo com a JLL, que projeta a transação de mais de 168.000 casas este ano. A confirmar-se, este valor apresenta um aumento de 10% face aos €28.100 milhões transacionados em habitação em 2021, os quais já tinham estabelecido um volume nunca antes visto em vendas residenciais.

No imobiliário comercial*, a JLL confirma a concretização de operações no valor de €3.300 milhões de euros em 2022, refletindo um aumento anual de 66% face aos €1.950 milhões investidos em 2021 e uma aproximação a outros anos, nomeadamente 2018 e 2019, quando foi ultrapassada também a marca dos €3.300 milhões. Acrescem ainda cerca de €350 milhões de euros em transações de ativos para promoção imobiliária, os quais incluem terrenos e prédios para construção nova ou reabilitação.

Na ocupação, o mercado de escritórios de Lisboa atingiu números recorde, estimando-se uma absorção de 275.000 m2, superior em quase 20% ao anterior máximo de mercado, em 2008. No Porto, a atividade de escritórios deverá somar cerca de 53.500 m2, em linha com o ano anterior. Já o imobiliário de industrial e logística deverá registar uma ocupação de 450.000 m2, abrandando em 25% face a 2021, em reflexo sobretudo da falta de produto disponível. Esta continua, aliás, a ser uma característica transversal aos diversos segmentos de imobiliário, quer para ocupação quer para investimento, o que tem sustentado a subida consistente dos níveis de preços e rendas.

Pedro Lancastre, CEO da JLL Portugal, explica que “iniciámos 2022 a pensar que seria um ano marcado pela recuperação pós-covid, mas o panorama mudou com um clima de guerra na Europa, inflação em níveis que não são vistos há 30 anos e taxas de juro a aumentar depois de anos negativas. Estas novas realidades têm, obviamente, impactos, incluindo a redução do poder de compra das famílias e das empresas e aumento dos custos de financiamento. Mas o facto é que o imobiliário português volta a ter um desempenho surpreendente numa conjuntura adversa. Destaco a absorção de habitação e de escritórios, mas também um ano recorde com volume de transações tanto a nível residencial como no imobiliário comercial”.

Para o responsável da JLL, “este desempenho foi possível porque, por um lado, Portugal está no centro do radar para os investidores (privados e institucionais), e por outro, porque o mercado imobiliário português sofre de escassez estrutural de oferta. No entanto, a adversidade macroeconómica e a incerteza geopolítica começam já a afetar a dinâmica do mercado imobiliário, notando-se nos últimos meses do ano, que tradicionalmente são mais fortes, sinais de algum abrandamento”.

E acrescenta: “é o facto de partirmos de uma base bastante considerável de investimento, vendas e ocupação, sustentados em níveis sólidos de preços e rendas, que nos faz encarar o ano com otimismo. Além disso, não se espera que a reposição de oferta acelere. Pelo contrário”.

“Encaramos por isso 2023 com moderado otimismo, apesar da conjuntura económica adversa e da perda de poder de compra de empresas e famílias, vamos continuar a ter um mercado onde a oferta existente não responde claramente às necessidades da procura, mesmo que essa procura possa abrandar. Além disso, os perfis de procura são muito mais diversificados que antes. Entre consumidores particulares e empresariais de casas, escritórios ou lojas, temos portugueses e estrangeiros com poderes de compra muito variados e capacidades de endividamento muito diferentes. Olhamos, assim, para 2023 com a cautela que a pressão inflacionista e os outros constrangimentos económicos exigem, mas com o otimismo de termos um mercado bem posicionado internacionalmente, com fundamentais que permanecem robustos em todos os segmentos, com níveis de risco bastante atrativos quando comparados com outros mercados e com um volume de liquidez bastante elevado”, termina Pedro Lancastre.

ESTIMATIVAS PARA O MERCADO IMOBILIÁRIO

 

INVESTIMENTO

  • Volume transacionado ascende a €3.300 milhões, num crescimento de 66% face a 2021 e equiparado aos anos recorde de 2018 e 2019.
  • Capital estrangeiro gera 80% do investimento, com destaque para operadores como a Blackstone, Tristan Capital, Merlin Properties, Round Hill, CPPIB ou a Incus Capital, entre outros.
  • Diversificação de investimento com foco em ativos mais operacionais. Imobiliário hoteleiro foi a principal classe de investimento, com 35% do montante. Este desempenho fica a dever-se à maior transação de um portefólio hoteleiro no mercado português, a venda dos fundos da ECS (portfolio CROW) à Davidson Kempner, pelo valor estimado de €850 milhões. Os escritórios têm uma quota de 26%, limitados pela falta de oferta. Industrial & logística, com 18%, teve um desempenho excelente: os cerca de €590 milhões transacionados, contrastam com a média anual de €100 milhões dos últimos 3 anos.
  • Yields com tendência de subida transversal a todos os segmentos. A yield prime situa-se nos 4,75% para escritórios, 5,75% nos centros comerciais prime, 4,5% no comércio de rua e 5,25% em industrial e logística, fruto do aumento do risco e do custo de capital.
  • PARA 2023: Espera-se um ajuste de preços e aumento dos custos de financiamento, embora se antecipe 2023 como um ano robusto e com muita liquidez disponível, num mercado com limitações de oferta de produto core. Não se esperam riscos sistémicos e as vendas sob pressão deverão ser limitadas. Os ativos não prime serão mais pressionados, num mercado onde a adequação dos imóveis em termos de ESG e taxonomia da UE passa a ter um peso relevante na avaliação de um investimento.

ESCRITÓRIOS:

  • Estima-se que o volume de absorção em Lisboa atinja os 275.000 m2, mais 70% do que em 2021 e estabelecendo novo recorde. Supera em 18% o ano de 2008, o melhor de sempre para a ocupação de escritórios até à data. Procura muito orientada para ativos premium de alta qualidade e áreas grandes.
  • No Porto, o take-up deverá ficar em 53.500 m2, menos 6% do que em 2021. Este volume mais restrito reflete uma procura mais direcionada para áreas de menor dimensão.
  • Renda prime de Lisboa ascende a 27€/m2, em crescimento face a 2021, uma tendência comum a todas as zonas do mercado devido ao desequilíbrio entre a oferta e procura e a uma maior qualificação da oferta que entra no mercado.
  • Renda prime no Porto é de 18€/m2, estável face a 2021.
  • PARA 2023: Procura deve manter-se robusta. Empresas continuam motivadas em melhorar os seus escritórios e/ou reajustá-los devido às preocupações com a sustentabilidade (ESG), à adequação às novas formas de trabalho de forma de atrair e reter talento. A falta de oferta disponível mantém-se como a grande preocupação deste mercado, já que 61% da área que será concluída em 2023 (equivalente a 199.000 m2) já está comprometida.

INDUSTRIAL & LOGÍSTICA

  • Volume de absorção estimado de 450.000 m2, decrescendo 25% face a 2021 em reflexo da escassez de oferta e dos constrangimentos no lançamento de novos produtos.
  • Procura dinâmica, mas com escassez de resposta para as duas necessidades. A procura insatisfeita pretende maioritariamente áreas entre os 3.000 e os 5.000 m2.
  • Maior pressão da procura em zonas mais próximas dos consumidores, devido à maior penetração do comércio online. Mas a saturação das áreas mais consolidadas e a relocalização dos consumidores para a periferia têm feito emergir destinos como a Margem Sul do Tejo e em particular Montijo e Alcochete.
  • A entrada de novos players, incluindo internacionais como a Montepino e Panatonni, aumenta a sofisticação e transparência do mercado.
  • Rendas em crescimento devido ao desequilíbrio entre procura e oferta. Renda prime (Alverca-Azambuja) é de 4,25€/m2.
  • PARA 2023: Este segmento pode beneficiar das estratégias de relocalização dos hubs de produção e distribuição das empresas para mais perto do consumidor europeu. Contudo, é um mercado que continua marcado pela falta de oferta, com pressão sobre as rendas e emergência de zonas secundárias. Da parte dos ocupantes, há um maior foco nos custos operacionais, o que deverá aumentar a procura por ativos novos mais sustentáveis ou por ativos existentes requalificados.

RETALHO

  • O mercado de retalho recuperou dinâmica este ano, o que é especialmente patente no comércio de rua, com a chegada de novas marcas, quer a Lisboa quer ao Porto.
  • Esta dinâmica reflete a reativação do turismo, que “devolveu” consumidores às principais zonas de comércio de rua de Lisboa, como a Baixa, Chiado e o Príncipe Real, e do Porto, nomeadamente na avenida dos Aliados e em Santa Catarina.
  • A avenida da Liberdade é, neste contexto, uma das zonas que mais beneficiou da retoma da atividade pós-Covid. Prova disso é a abertura de mais uma loja das maiores insígnias de luxo mundial, em Portugal, em operação mediada pela JLL. Uma flagship store, com quase 1.000 m2. Esta tem sido uma zona de forte procura de espaços, mas travada pela escassez de oferta, o que impulsionou as rendas em cerca de 10% no último ano para 110€/m2.
  • O aumento de procura de espaços é também um reflexo de novos hábitos de consumo, com o crescimento do comércio de bairro, conveniência e proximidade, que aumentou a base de consumidores e fez surgir novos destinos de compras
  • Esta dinâmica é transversal à maioria dos setores, com o F&B a evidenciar-se.
  • Tanto no comércio de rua como nos centros comerciais prime, a oferta disponível de qualidade superior é escassa, o que está a condicionar a abertura de novas lojas.
  • Na generalidade, as rendas prime mantiveram-se estabilizadas no mercado português, fixando-se em 115 €/m² para os centros comerciais prime, nos 12€/m² para o retalho alimentar e stand alones, e nos 11€/m² para os retail parks. No comércio de rua, as rendas prime mantiveram-se estabilizadas em Lisboa (130€/m² praticados no Chiado) e aumentaram no Porto (70€/m² na rua Santa Catarina).
  • PARA 2023: Em contexto de redução do poder de compra das famílias, num cenário que é não só nacional como internacional, antecipa-se uma queda no consumo, o que poderá afetar a procura de espaços de retalho. Contudo, este é um mercado que se alterou profundamente nos últimos 3 anos, com o crescimento das vendas online e o novo papel das lojas físicas. Atualmente, o foco do espaço físico é cada vez mais proporcionar uma experiência ao cliente, estimulando o consumo, pelo que a aposta das marcas no imobiliário de retalho poderá continuar forte apesar da conjuntura económica adversa.

HABITAÇÃO

  • Estima-se a venda de mais de 168.000 casas, em ligeiro aumento (2%) face a 2021. Já o montante transacionado deverá crescer 10% para €31.000 milhões, alavancado por um primeiro semestre que registou o maior volume de sempre.
  • O crédito à habitação concedido equivale a cerca de 50% do montante transacionado em habitação, vs 76% em 2008, refletindo um mercado menos alavancado. O crédito concedido aumentou 7% (até outubro) apesar de condições de financiamento mais restritas.
  • Mercado doméstico robusto e forte atividade dos estrangeiros, que geram 6% de todas as vendas no país. No segmento prime, de acordo com a atividade da JLL, há um equilíbrio no que respeita às nacionalidades dos compradores. Nas vendas concretizadas pela consultora, 54% são a portugueses e 46% a estrangeiros. Brasileiros, Americanos e Ingleses perfazem o Top 3.
  • Portugal é visto como um destino seguro e a habitação, em geral, como uma classe de ativos mais resiliente do que outras hipóteses.
  • A falta de oferta sustentou os níveis de preço, mas existem ajustes em alguns segmentos.
  • Lisboa regista preços de venda na ordem dos 4.300€/m2 e o Porto de 3.000€/m2, de acordo com o SIR (Sistema de Informação Residencial).
  • PARA 2023: O surgimento de nova oferta será limitado devido ao aumento dos custos de construção e aos licenciamentos demorados. Com a perda do poder de compra e as restrições de acesso ao crédito, a oferta nova tenderá a direcionar-se mais para os segmentos menos afetados em termos de rendimento, como as classes média-alta e alta. A classe média será a mais impactada no acesso à habitação, devido à falta de oferta, pressão sobre os preços e maiores restrições no acesso ao crédito. O mercado de arrendamento surge como uma alternativa, mas continuam a existir condições estruturais que afetam a atratividade deste segmento para os promotores imobiliários.

DEVELOPMENT/PROMOÇÃO IMOBILIÁRIA

  • Volume estimado de €350 milhões transacionados, entre terrenos para nova construção e edifícios para reabilitar ou requalificar. Deste volume, 200.000 m2 foram operações mediadas pela JLL para novos projetos de construção e reabilitação – maioritariamente residencial, escritórios e hotelaria –, com foco em projetos de grande escala que concentram vários usos.
  • PARA 2023: A atividade de promoção imobiliária enfrenta desafios no próximo ano, dado o agravamento dos custos de construção e os obstáculos à atividade como a burocracia e a morosidade dos licenciamentos. De qualquer forma, o desenvolvimento imobiliário continua a ser atrativo, dada a escassez estrutural de oferta nos vários tipos de imobiliário e a diversidade de públicos-alvo.

INVESTIMENTO EM CARTEIRAS DE CRÉDITOS NÃO PRODUTIVOS e REO`s

  • Já encarados como uma nova classe de investimento, os portefólios de NPL (non-performing loans ou créditos não produtivos) e REO`s (real estate owned assets ou ativos que ficam em posse dos bancos) deverão gerar um volume de transações em 2022 em torno dos €2.000 milhões, em queda face a 2021 e muito distante da dinâmica de anos mais fortes, como 2018 e 2019. As condições deste mercado deterioraram-se ao longo do segundo semestre, com o cancelamento da entrada em venda de alguns portefólios que tinham sido anunciados, como foram o exemplo do Project Douro, do Montepio (700M€), Project Minerva, do Novo Banco (150M€), e do adiamento para o próximo ano do Project Lisboa, da Parvalorem (226M€).
  • PARA 2023: Existem preocupações em torno do aumento do crédito malparado em Portugal, assim como no resto da Europa, pela conjugação da deterioração das condições macroeconómicas e do aumento das taxas de juro, que terão impacto na capacidade das famílias e empresas cumprirem o seu serviço da dívida. Contudo, Portugal reúne boas condições para absorver o impacto destas condições adversas no incumprimento, com um crescimento do PIB acima da média da zona Euro em 2022, baixa taxa de desemprego, menor exposição à Guerra Ucrânia/Rússia, poupanças elevadas face às crises anteriores e um sistema financeiro mais robusto, onde o atual nível de incumprimento é de 3,6% do total do crédito concedido, face aos 15% registados em 2015. Ainda assim, é expetável que o próximo ano seja um ano de alguma atividade neste segmento, no entanto, espera-se que muito similar ao ano que agora termina, sendo que, dependendo da duração do atual enquadramento económico, poderemos vir a registar um aumento do volume de investimento nestes ativos em 2024 e anos seguintes.

 (*) O investimento em imobiliário comercial abrange imóveis de escritórios, retalho, industrial & logística e hotelaria, bem como os segmentos alternativos (não residenciais), como ativos construídos para arrendamento, saúde, desporto ou ensino. Esta análise considera ativos de rendimento, excluindo transações de imóveis para promoção imobiliária e reabilitação. Exclui igualmente aquisições de imóveis residenciais.

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