A crescente instabilidade geopolítica, aliada à recuperação da procura por viagens aéreas e à rápida evolução tecnológica, está a impulsionar um crescimento acelerado do setor aeroespacial e de defesa a nível global. No entanto, a escassez de talento qualificado surge como um dos principais desafios para as organizações que procuram acompanhar este ritmo de transformação. Em Portugal, este desafio é ainda mais expressivo do que a nível global, com 88% dos empregadores nacionais do setor industrial a afirmar dificuldades no recrutamento de talento especializado.
Este cenário surge num momento em que a Europa reforça urgentemente o investimento em defesa, face ao atual contexto global, para fortalecer as capacidades do setor, impulsionando ainda mais a necessidade de talento qualificado. Globalmente, as carências de competências podem custar até 330 milhões de dólares por ano a um fabricante médio do setor, evidenciando o impacto económico direto da escassez de talento. Estas são conclusões do Global Insights Whitepaper – Setor Aeroespacial e Defesa, do ManpowerGroup, que analisa tendências, desafios e necessidades de talento no setor.
1ª tendência: Crescimento acelerado impulsionado pela instabilidade global e pela procura aérea
O panorama geopolítico continua a moldar profundamente as indústrias aeroespacial e de defesa. Mudanças nas dinâmicas de poder global, novas ameaças e alianças em transformação estão a influenciar estratégias e prioridades de investimento. Consequentemente, os Governos em todo o mundo estão a aumentar os seus orçamentos de defesa para modernizar capacidades militares e responder aos novos riscos. Na Europa, este reforço das capacidades de defesa está a ganhar dimensão, impulsionado por fundos comunitários que mobilizam milhares de milhões de euros para investigação, desenvolvimento e produção conjunta.
Em paralelo, as tensões geopolíticas estão a levar muitas empresas a aproximar as suas cadeias de abastecimento e operações logísticas dos principais mercados, acelerando iniciativas de reshoring e nearshoring. À medida que a produção aumenta e que aproximamos as cadeias de produção de mercados onde já existe escassez de talento técnico qualificado, aumentam os desafios para os empregadores. Efetivamente a localização limita os riscos nas cadeias de abastecimento, mas o aumento do número de novas unidades produtivas exigirá talento altamente qualificado, agravando as dificuldades de recrutamento.
Para responder a este cenário, as empresas terão de alargar as suas bases de talento e investir de forma consistente em formação e desenvolvimento. Parcerias com instituições de ensino, programas de requalificação e iniciativas de aprendizagem contínua serão fundamentais para preparar a força de trabalho para as exigências futuras de um setor em transformação.
2ª tendência: Indústria 4.0 e reinvenção do chão de fábrica
A Indústria 4.0 está a transformar profundamente os processos de fabrico. A integração de tecnologias como a Internet of Things (IoT), inteligência artificial (IA), robótica e análise avançada de dados está a permitir criar fábricas inteligentes, onde sistemas interligados comunicam entre si e permitem otimizar processos produtivos em tempo real. Em 2024, mais de 4,3 milhões de robôs estavam em operação em fábricas em todo o mundo, um valor recorde global, segundo a International Federation of Robotics. Do mesmo modo, dados do Fórum Económico Mundial revelam que, no setor da indústria avançada, 81% dos empregadores planeiam utilizar IA para melhorar processos existentes.
Em particular, no setor aerespacial e de defesa, esta transformação digital está a ser um dos principais motores de desenvolvimento. Tecnologias como os gêmeos digitais — réplicas virtuais de ativos físicos — permitem a monitorização em tempo real, facilitam a manutenção preditiva e permitem melhorar o desempenho, reduzindo os custos operacionais. Outro exemplo pode ser encontrado no recurso à tecnologia blockchain que aumentará a segurança e a transparência nas cadeias de abastecimento, garantindo a integridade de componentes críticos, fundamentais neste setor. Ao nível da adoção da IA; a análise de grandes volumes de dados provenientes dos sensores aeronáuticos permite antecipar falhas, reduzindo paragens, otimizando custos e reforçando os níveis de segurança.
Esta evolução traz igualmente consequências ao nível das necessidades de talento, e está a aumentar a procura de competências especializadas. A análise de dados, a cibersegurança e o desenvolvimento de software tornar-se-ão competências essenciais para este setor. No entanto, estes são perfis altamente qualificados e escassos, e os fabricantes vão enfrentar uma forte concorrência de outros setores para atrair e reter o talento técnico essencial para acompanhar a evolução tecnológica. Na resposta a este desafio, as empresas devem superar perceções ultrapassadas da indústria e reforçar um employer branding que destaque os novos ambientes de trabalho modernos e a exposição à tecnologia e à inovação.
Também o desenvolvimento de competências de literacia em IA se torna cada vez mais relevante, devendo estender-se a todos os níveis da organização, incluindo o chão de fábrica e os trabalhadores da linha da frente. Segundo o Fórum Económico Mundial, pelo menos 1 em cada 3 trabalhadores da linha da frente terá de ser capacitado para adquirir competências em IA nos próximos anos, exigindo um esforço deliberado para escalar as iniciativas de formação. Em Portugal, os empregadores do setor industrial afirmam que as carências nas competências da força de trabalho (30%) são um dos principais desafios à adoção da IA e reportam uma maior dificuldade em encontrar profissionais com competências em produção industrial (41%), engenharia (25%) e desenvolvimento de aplicações e modelos de IA (24%).
3ª tendência: Crescimento das ameaças de cibersegurança
A crescente digitalização do setor está também a aumentar a exposição a riscos de cibersegurança. Nos últimos anos, a indústria aeroespacial e de defesa tornou-se um dos principais alvos de ciberameaças dirigidas a infraestruturas, com os riscos ao nivel das interrupções nos processos produtivos e da proteção da propriedade intelectual a aumentarem. Em 2024, 25% de todos os ciberataques globais tiveram como alvo empresas industriais, tornando este o setor mais visado. Na Europa, os ataques de sabotagem dirigidos a empresas aeroespaciais e de defesa quase triplicaram entre 2023 e 2024, depois de já terem quadruplicado no ano anterior, segundo o CSIS. Assim, à medida que os sistemas de defesa se tornam mais interligados e dependentes de tecnologias digitais, como IA e IoT, o setor torna-se ainda mais vulnerável a ameaças sofisticadas.
Este contexto está a reforçar a necessidade de investimento contínuo em cibersegurança, não apenas ao nível tecnológico, mas também na qualificação da força de trabalho. A capacidade de atrair e reter talento especializado em cibersegurança torna-se, assim, uma prioridade crítica para o setor. No entanto, a forte procura por estas competências, em múltiplas indústrias, está a intensificar a competição por talento, tornando ainda mais desafiante para as empresas do setor garantir os recursos necessários para proteger as suas operações e infraestruturas críticas.
4ª tendência: Talento necessário para escalar a produção
As empresas enfrentam hoje um duplo desafio: por um lado, a crescente complexidade das cadeias de abastecimento globais exige profissionais altamente especializados; por outro, o envelhecimento da força de trabalho nas economias mais industrializadas está a acelerar a saída de talento experiente do mercado.
Este contexto coloca uma pressão adicional sobre a capacidade das organizações em atrair e reter novas gerações de profissionais. Embora Millennials e Geração Z tragam uma forte afinidade com a tecnologia e possam desempenhar um papel relevante na transformação digital do setor, estas gerações tendem a valorizar cada vez mais fatores como propósito, progressão de carreira e alinhamento com valores organizacionais. Como resultado, a competição por talento jovem qualificado está a intensificar-se, não apenas dentro do setor, mas também com outras indústrias tecnológicas e digitais.
Perante este cenário, o investimento em planeamento estratégico de talento, formação contínua e desenvolvimento de carreira torna-se essencial para atrair e fidelizar o talento jovem, garantindo a sustentabilidade do crescimento. Além disso, a retenção assume um papel cada vez mais crítico. Estima-se que o custo médio de substituição de um colaborador possa atingir cerca de 18.591 dólares, reforçando a importância de estratégias eficazes de desenvolvimento e fidelização de talento.
Escassez de talento continua a ser o maior desafio
Apesar das oportunidades de crescimento, a escassez de talento qualificado representa um desafio estrutural para um setor aeroespacial e de defesa marcado pela disrupção tecnológica, pela instabilidade geopolítica e por exigências crescentes de segurança.
Para os empregadores deste setor, investir no planeamento estratégico da força de trabalho para preparar o futuro torna-se fundamental. Apesar dos desafios externos, as empresas podem controlar o essencial: construir equipas preparadas para o futuro, e desenvolver competências críticas para impulsionar a inovação e reforçar a produtividade.
O estudo completo Global Insights Whitepaper – Setor Aeroespacial e de Defesa, do ManpowerGroup está disponível para consulta aqui.
