Menos açúcar, mais frescura. O Spritz conquistou definitivamente este verão, os cocktails sem álcool deixaram de ser uma alternativa de segunda linha e os ingredientes portugueses estão a ganhar protagonismo.
Afinal, o que estamos realmente a beber?
Há algum tempo que os cocktails deixaram de ser apenas uma bebida. Hoje, fazem parte da experiência. São um pretexto para prolongar um final de tarde, acompanhar um jantar ou celebrar um momento especial. Escolhem-se pela frescura, pela apresentação, pelo sabor e, cada vez mais, pela história que contam.
No verão de 2026, as tendências apontaram para uma mudança clara: o consumidor tem procurado bebidas mais equilibradas, menos doces, mais leves e adaptadas a diferentes ocasiões. O álcool já não dita as regras. Em muitos casos, é apenas um dos ingredientes de uma experiência que privilegia o sabor, a criatividade e a partilha.
É esta evolução que o Cocktail Index 2026, desenvolvido pela Cocktail Team com base na experiência da empresa em centenas de eventos e na análise de estudos internacionais do setor, procura retratar. Mais do que identificar o cocktail da moda, o índice revela uma transformação na forma como os portugueses têm brindado este verão.
Cocktail Index 2026
Cocktail internacional mais forte: Margarita
Clássico incontornável: Mojito
Tendência com maior crescimento: Spritz e cultura do aperitivo
Perfil de sabor dominante: cítrico, fresco e equilibrado
Categoria emergente: cocktails sem álcool
Destilado em destaque: tequila
Sabores em crescimento: picante, amargo, salgado e herbal
Ingrediente-chave: fruta da época
Tendência em perda de força: cocktails excessivamente doces
Regra principal: a apresentação atrai, mas o sabor fideliza
Metodologia
O Cocktail Index é uma leitura editorial e qualitativa da Cocktail Team. O índice cruza a experiência da empresa em eventos e serviços de bar com estudos internacionais publicados pela Bacardi, IWSR e NielsenIQ e com informação recente sobre o consumo de bebidas sem álcool em Portugal.
Os Clássicos que resistem ao tempo
Há sabores que parecem fazer parte da memória coletiva. Mojito, Margarita, Piña Colada, Caipirinha ou Gin Tónico continuam a ser escolhas praticamente inevitáveis, principalmente nos meses mais quentes do ano.
Não se trata apenas de tradição, são cocktails que inspiram confiança, têm perfis de sabor bem definidos e respondem exatamente ao que se procura nesta época do ano: frescura, acidez, fruta e leveza.
Segundo a Cocktail Team, estes clássicos têm dominado os pedidos nos eventos dos últimos meses, embora a sua popularidade resulte hoje menos da receita original e mais das sensações que proporcionam. Um bom cocktail deve ser refrescante, fácil de beber e capaz de acompanhar diferentes momentos num dia mais quente, da praia ao sunset, do almoço ao jantar.
“Os clássicos continuam a ser importantes porque transmitem familiaridade. Mas aquilo que hoje faz a diferença é a qualidade da execução e a capacidade de adaptar cada receita ao momento e ao perfil de quem a vai beber“, explica Hugo Silva, fundador da Cocktail Team.
A era do equilíbrio
Durante muitos anos, os cocktails eram sinónimo de bebidas muito doces, carregadas de xaropes e sabores tropicais intensos. Essa tendência está a perder força.
O consumidor atual procura um equilíbrio entre doçura, acidez, aromas herbais e até notas amargas ou salgadas. A lima, o limão, a toranja, o pepino, o gengibre ou a hortelã passaram a ocupar um lugar central nas cartas de cocktails, criando bebidas mais leves e refrescantes.
A Margarita é um dos melhores exemplos desta evolução: combina a intensidade da tequila com a acidez da lima, a doçura do licor de laranja e o contraste subtil do sal. O resultado é uma bebida equilibrada, que continua a conquistar novos apreciadores precisamente por não depender do açúcar para agradar.
Esta procura por frescura explica por que razão o Cocktail Index atribui a pontuação máxima às tendências relacionadas com equilíbrio e leveza, enquanto os cocktails excessivamente doces surgem entre os que mais perderam relevância nos últimos anos.
O fenómeno chamado Spritz
Se existe uma bebida que simboliza o verão europeu de 2026, é o Spritz.
O cocktail italiano deixou há muito de estar associado apenas ao Aperol. Hoje, reinventa-se através de vinho do Porto, limoncello, vermutes, flor de sabugueiro, citrinos ou ingredientes botânicos, tornando-se uma das escolhas preferidas para finais de tarde e momentos antes do jantar.
A sua popularidade explica-se pela combinação de baixa intensidade alcoólica, frescura e uma imagem descontraída que acompanha o novo estilo de consumo. Não surpreende, por isso, que o Spritz seja apontado pela Cocktail Team como a tendência com maior crescimento deste verão.
Beber menos. Beber melhor.
A grande mudança não está apenas no que se bebe, mas na forma como se bebe.
Os consumidores continuam a celebrar, mas fazem-no de forma mais consciente. Alternam entre cocktails tradicionais, versões de baixo teor alcoólico e opções sem álcool, privilegiando a qualidade em detrimento da quantidade.
Esta tendência acompanha uma transformação global dos hábitos de consumo e reflete uma preocupação crescente com o bem-estar, a condução responsável e a procura de experiências mais completas.
Hoje, um cocktail sem álcool já não é encarado como uma solução de recurso. É pensado com o mesmo cuidado, utilizando infusões, kombuchas, ervas aromáticas, destilados sem álcool e ingredientes naturais capazes de criar bebidas sofisticadas e complexas.
Menos excessos, mais experiência: a nova forma de brindar
Durante décadas, a ideia de um bom cocktail esteve muitas vezes associada ao excesso: mais álcool, mais açúcar, mais ingredientes, mais decoração. Hoje, essa lógica está a desaparecer. A palavra de ordem é equilíbrio.
Não significa que as pessoas tenham deixado de sair ou de celebrar. Significa apenas que passaram a escolher melhor. O prazer continua lá, mas procura-se uma experiência mais completa, onde contam o sabor, a qualidade dos ingredientes, a apresentação e até o contexto em que a bebida é servida.
É uma tendência que atravessa toda a restauração e que também chegou ao universo da coquetelaria. Os consumidores alternam entre cocktails clássicos, versões de baixo teor alcoólico e bebidas sem álcool, sem que isso represente abdicar do momento de convívio.
“O cliente de hoje é muito mais informado. Quer perceber o que está a beber, interessa-se pelos ingredientes, faz perguntas e valoriza a qualidade. Já não procura apenas um cocktail forte; procura um cocktail memorável”, refere Hugo Silva, fundador da Cocktail Team.
Segundo o Cocktail Index 2026, esta mudança explica por que razão conceitos como moderação, frescura e equilíbrio assumem um papel central nas tendências atuais.
O fim do preconceito: os cocktails sem álcool já não são um plano B
Durante muito tempo, pedir um cocktail sem álcool significava aceitar uma mistura previsível de sumos, refrigerantes e xaropes. A estética era semelhante, mas a experiência ficava inevitavelmente aquém.
Hoje, o cenário é completamente diferente. Os chamados mocktails conquistaram um lugar próprio nas cartas dos bares mais criativos e deixaram de ser vistos como uma alternativa apenas para quem conduz ou não consome álcool. São, cada vez mais, uma escolha consciente.
A mudança acompanha uma evolução do próprio consumidor. Há quem opte por intercalar bebidas alcoólicas e não alcoólicas durante um jantar, quem privilegie opções mais leves durante a semana ou quem simplesmente procure sabores diferentes, sem necessidade de consumir álcool.
A criatividade dos bartenders também elevou a categoria. Chás frios, kombuchas, infusões, ervas aromáticas, frutas da época, especiarias, fermentados e destilados sem álcool permitem criar cocktails complexos, aromáticos e surpreendentes, onde o açúcar deixa de ser o elemento dominante.
Mais do que reproduzir receitas tradicionais, estes cocktails afirmam uma identidade própria e conquistam um público cada vez mais exigente. Para a Cocktail Team, esta evolução traduz uma nova forma de hospitalidade: todos os convidados, independentemente das suas escolhas, devem sentir que recebem uma bebida pensada com o mesmo cuidado e atenção ao detalhe.
A tequila cresceu. E veio acompanhada de um toque picante.
Durante muitos anos, a tequila ficou presa ao imaginário das festas e dos famosos shots acompanhados por sal e limão. Hoje, vive uma segunda vida.
O destilado mexicano tornou-se uma das bebidas mais valorizadas da coquetelaria contemporânea e aparece em cocktails elegantes, equilibrados e cheios de personalidade. A Margarita continua a ser a sua maior embaixadora, mas Palomas, Highballs e novas interpretações assinadas por bartenders estão a conquistar espaço nas cartas dos bares portugueses.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por sabores mais ousados. Malagueta fresca, jalapeño, gengibre, pimenta-preta, salmouras artesanais ou bitters vegetais acrescentam profundidade às receitas e respondem a um consumidor mais disponível para experimentar.
Curiosamente, esta procura acompanha uma tendência mais ampla da gastronomia. Tal como aconteceu com a cozinha asiática ou latino-americana, também os cocktails passaram a explorar contrastes entre doce, ácido, amargo, salgado e picante.
O resultado passa por bebidas mais complexas, menos previsíveis e capazes de proporcionar experiências sensoriais muito diferentes daquelas que dominavam as cartas há apenas alguns anos.
O ingrediente secreto chama-se Portugal
Enquanto muitas tendências chegam de cidades como Londres, Nova Iorque ou Milão, há um movimento silencioso que cresce dentro de portas: a valorização dos produtos portugueses.
Em vez de copiar receitas internacionais, muitos bartenders procuram reinterpretá-las através de ingredientes locais, criando cocktails que contam uma história sobre o território onde são servidos.
Citrinos do Algarve, figos, melão, frutos vermelhos, ervas aromáticas, mel, sal marinho, vinho do Porto, Moscatel, aguardente vínica, medronho ou até café começam a surgir como protagonistas de receitas contemporâneas.
Mais do que uma questão de identidade, trata-se também de sazonalidade. Trabalhar com fruta da época permite criar bebidas mais frescas, mais sustentáveis e com uma ligação evidente ao verão português. É precisamente essa autenticidade que poderá marcar a próxima fase da coquetelaria nacional: menos reprodução de tendências internacionais e mais capacidade para criar uma assinatura própria.
Ainda bebemos primeiro com os olhos?
Vivemos numa época em que quase tudo passa pelas redes sociais. Também os cocktails. Um copo elegante, um bloco de gelo perfeitamente transparente, uma flor comestível ou um ramo de alecrim continuam a captar atenções e a multiplicar fotografias. Mas a estética, por si só, já não chega.
“A apresentação continua a despertar curiosidade. No entanto, é o sabor que determina se o cliente volta a pedir o mesmo cocktail“, resume Hugo Silva.
A personalização tornou-se igualmente uma tendência crescente. Copos gravados, gelo personalizado, ingredientes preparados à frente do cliente ou pequenos gestos de serviço transformam uma bebida numa experiência memorável.
No fundo, a apresentação continua a abrir a porta. Mas é a qualidade que faz o convite para voltar.
Como tem sido o verão de 2026?
Se fosse possível resumir este verão num único copo, dificilmente teria uma receita universal.
Teria bastante gelo. Lima acabada de cortar. Talvez toranja ou maracujá. Um toque herbal de hortelã ou manjericão. Alguma efervescência. Um nível de açúcar mais contido. Poderia levar tequila, um aperitivo italiano, um vinho português ou simplesmente uma excelente bebida sem álcool.
Acima de tudo, seria um cocktail pensado para acompanhar pessoas, conversas e momentos. Por que a verdadeira tendência deste verão não é uma bebida específica. É a forma como escolhemos vivê-la. Mais consciente. Mais equilibrada. Mais criativa. E, sobretudo, mais personalizada.
É precisamente essa mudança de atitude que o Cocktail Index 2026 revela: um consumidor que continua a brindar, mas que valoriza cada vez mais aquilo que está dentro do copo e tudo o que acontece à sua volta.
